27 de março de 2017

Resenha | Revista Trasgo - Edição 05

Título: Revista Trasgo – Edição #5
Autores: George dos Santos Pacheco, Roberta Spindler, A. Z. Cordenonsi, Claudio Villa, Cesar Cardoso, Priscila Barone, Rodrigo van Kampen (organizador), Zakuro Aoyama (ilustrador)
Ano de publicação: 2014
Editora: Independente
Número de páginas: 100
Sinopse: A Revista Trasgo é uma revista de contos de ficção científica e fantasia em língua portuguesa, disponível online e em e-books. Nesta edição há um conto exclusivo no e-book, de autoria de George dos Santos Pacheco, autor de “O Fantasma do Mare Dei”. Chama-se Os Americanos que Vieram do Céu, um conto ambientado em uma Nova Friburgo na época da segunda guerra, onde os irmãos Tomás e Carlos Antônio se escondem para fugir do alistamento, dando de encontro com amores e uma estranha surpresa que pode mudar o rumo de suas vidas.
Roberta Spindler apresenta um conto dramático. Em O Preço da Cura, um pai desesperado precisa engolir o orgulho e tomar uma decisão da qual pode se arrepender pelo resto de sua vida. A.Z. Cordenonsi cria um belo cenário steampunk em O Prego de Batalha. Poderão os ágeis cacciatori vencer os gigantes dreadnoughts austríacos na batalha dos alpes italianos?
Direto dos mares de Azhir, a Capitã Rosa atraca em um conto de Cláudio Villa. Um Convite para o Jantar traz a protagonista de seu romance “O Vento Norte” em uma de suas aventuras de piratas para a revista. O fim do mundo não é único. É plural, insano, belo, com tantas cores quanto pessoas. É um pouco desses vários fins que o carioca Cesar Cardoso, autor do livro de contos “As Primeiras Pessoas”, costura em Isso É Tudo, Pessoal. Para fechar a edição, Priscila Barone apresenta a vida de Clara, uma menina que vive numa casa flutuante, isolada do mundo não fosse por sua amiga, uma sereia chamada Pérola. Canção Abissal é um conto sobre medo e busca.
A capa é criação exclusiva do artista Zakuro Aoyama. A revista traz também trechos dos romances “A Torre Acima do Véu”, e “Le Chevalier e a Exposição Universal”, além das tradicionais entrevistas com os autores.

Os Americanos que Vieram do Céu (George dos Santos Pacheco)

O conto narra a história de dois irmãos que, na época da Segunda Guerra Mundial, tiveram de deixar sua casa em Niterói a mando do pai, que queria evitar a morte dos filhos na guerra. Assim, eles partem para morar com o tio excêntrico em Friburgo.

Eu não sou exatamente fã de histórias que tratam das criaturas abordadas no conto (não vou estragar a surpresa contando qual é). Entretanto, isso talvez nem fosse problema se outras coisas não tivessem me incomodado. No caso, os personagens, a narrativa e o enredo.

Depois de certo ponto, torna-se óbvio o que vai acontecer. Tanto que até esperei um plot twist, mas ele não veio: o conto terminou exatamente da forma que eu imaginava.

A narrativa conta o tempo inteiro, e grande parte do texto é contada em forma de resumo narrativo, sem que haja espaço para que os personagens mostrem quem são (e por isso nenhum deles me despertou algum sentimento, eles mais parecem um veículo para que a história seja contada). Também não consegui imergir na leitura: toda hora algum tell me tirava dela. Os incisos dos diálogos também me incomodaram. Grande parte deles une a identificação do dono da fala e uma ação, o que acarreta o gerúndio. Não sei se é uma coisa particular minha, mas incisos nesse formato costumam me tirar da leitura (e, aqui, estão em excesso).

★ ★ ☆ ☆ ☆



O Preço da Cura (Roberta Spindler)

Simão é um vampiro que se alimenta da energia das pessoas. Ele também tem alguns outros poderes, por isso é procurado por Jonas, seu genro, que precisa desesperadamente de ajuda para salvar seu filho Miguel (neto de Simão). Um tanto relutante, Simão aceita ajudar, mas vai cobrar muito caro por isso.

Apesar de ter um pouco de tell aqui e ali, a cena de abertura é bem instigante. O problema é que ela me fez esperar por algo completamente diferente, e eu não gostei muito do que se desenrolou a partir dessa cena. Não que a escolha de enredo seja problemática: foi mais uma questão de gosto; normalmente prefiro outros tipos de história.

Ainda assim, terminei a leitura com a sensação de que falta algo. Isso é, em parte, devido aos personagens: eles não são muito bem caracterizados, não tiveram suas motivações tão bem exploradas. A filha morta de Simão foi mencionada várias vezes, sem que houvesse preocupação em dar ao menos uma leve caracterização a ela. Além disso, os relacionamentos entre todos eles (Jonas, Simão, a filha morta deste, os filhos de Jonas) não foram muito bem trabalhados, algo que seria importante para dar um brilho a mais ao conto.

A narrativa tem um pouco de tell, como eu mencionei, e isso acabou tirando o impacto de duas cenas importantes. Mas conseguiu me manter entretida, sem me tirar da leitura muitas vezes.

★ ★ ★ ☆ ☆




O Prego de Batalha (A. Z. Cordenonsi)

O Prego de Batalha narra uma guerra entre a Áustria e a Itália, travada com máquinas mecânicas: os dreadnought austríacos e os cacciatori italianos. A narrativa se alterna entre os pontos de vista do Almirante Kuhn, do Capitão Giuseppe e de um garoto que espera o retorno de seu pai da guerra.

A princípio a narrativa me fisgou, apesar de contar um pouco aqui e ali e do excesso do uso de gerúndio nos incisos dos diálogos (os personagens sempre estão fazendo alguma coisa enquanto falam). O enredo também se mostrou interessante, focando nas estratégias de batalha e naquele embate específico, portanto não sabemos o motivo que desencadeou a guerra e nem dos acontecimentos que levaram àquele embate.

Esse não foi de jeito nenhum o problema. Mas eu esperava que os personagens fossem um pouco mais explorados, já que a estrutura escolhida me fez esperar um enfoque maior neles. Se as motivações deles tivessem sido ao menos um pouco trabalhadas, o conto provavelmente seria muito mais interessante e impactante.

O final ficou em aberto, dando apenas pistas do que poderia ter acontecido, o que sugeriu algo bem interessante — mas, mais uma vez, achei que o conto perdeu um pouco do brilho por não focar tanto quanto podia nos personagens.

★ ★ ★ ☆ ☆




Um Convite para o Jantar (Claudio Villa)

Um Convite para o Jantar tem ambientação inspirada na cultura árabe e narra a trajetória da família de Omar Abbud, que foi um mercador com bastante influência durante a guerra entre os reinos Aldarian e Azhir.

Apesar de ter começado de forma instigante, o conto mergulha em explicações sobre o contexto da guerra entre os dois reinos. Embora isso não se estenda por muitos parágrafos, quebrou um pouco a minha imersão, e talvez os diálogos pudessem até mesmo ter dado conta de passar esse contexto, mesmo que de forma subentendida.

O enredo me agradou, embora algumas cenas tenham ficado um tanto apressadas, e os personagens me despertaram o interesse. Quanto a eles, porém, senti que poderiam ter sido um pouco melhor trabalhados. As ideias por trás deles são ótimas (gostei especialmente de Capitã Rosa, que busca a ajuda de Omar), e isso teria deixado o conto bem mais instigante.

★ ★ ★ ✭ ☆




Isso é tudo, pessoal (Cesar Cardoso)

Isso é tudo, pessoal é um conto que narra o fim do mundo de uma forma bem diferente, alternando entre os pontos de vista de diversos personagens. Dessa forma, um tema tão batido rendeu um conto bem instigante e inovador — e bem humorado.

Os trechos são curtos, então passamos pouco tempo na mente de cada personagem. Ainda assim, a voz de cada um transpareceu na narrativa, e, a partir dos poucos detalhes que aparecem aqui e ali de forma natural entre os pensamentos deles, é possível entender o que está acontecendo e o que levou o mundo ao seu fim. É o tipo de narrativa que te joga na história sem parar para explicar o contexto e o universo, deixando que você pegue as pistas, e eu gosto muito desse estilo de narrativa.

★ ★ ★ ★ ★



Canção Abissal (Priscila Barone)

Clara vive em uma casa que flutua sobre boias no mar aberto. Ela nunca viu terra firme e, exceto por sua mãe, que morreu há alguns anos, nunca viu outro ser humano. O motivo para ela estar nessa situação não é explicado, e nem é importante para a história. O que importa é Clara e seu dia-a-dia, e a descoberta que faz com Pérola, a sereia que há anos a visita de vez em quando.

Eu gostei da narrativa. Ela é simples, sem grandes floreios, mas eficiente em me manter imersa na história. O enredo foca em Clara e em um mistério que Pérola encontrou em uma fenda abissal. É um enredo mais intimista, focado na transformação da personagem, e me agradou bastante. Os elementos fantásticos foram bem colocados e, apesar de a autora não parar para explicá-los, soam naturais dentro da história.

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